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Direito de Família e Sucessões

O ECA Digital chegou: o que muda para as crianças, as escolas e as famílias brasileiras?

Por Denize Tonelotto · 15 de maio de 2026

Você sabe que seu filho corre riscos mesmo dentro de casa? O celular na mão dele é a porta de entrada para um mundo que, na maior parte do tempo, os adultos não veem. Foi para mudar isso que o Brasil criou o ECA Digital. Desde 17 de março de 2026, o país tem uma lei específica para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, com obrigações concretas para plataformas, escolas e famílias.

O que é o ECA Digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente)?

O nome completo é Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. Ele não substitui o ECA original: acrescentou um capítulo que o mundo de 1990 não poderia prever, a internet.

A grande virada: proteção no design, não apenas no papel

Essa é a mudança mais importante da lei e a menos óbvia. Antes, bastava que um aplicativo tivesse uma política de privacidade bem redigida e um canal de denúncia no site. Era proteção no papel. Ninguém precisava provar que funcionava na prática.

Agora não. O ECA Digital exige que a proteção esteja presente desde o início, na forma como os aplicativos e redes sociais são construídos e configurados. As configurações mais seguras precisam ser as padrão, não as opcionais. O algoritmo precisa ser desenhado para reduzir riscos, não apenas para maximizar o tempo de uso. As plataformas serão avaliadas pelo que fazem, não pelo que prometem.

Quais os 4 tipos de riscos digitais que a nova lei quer combater?

Para entender o que a lei protege, ajuda saber de quais riscos ela fala. São quatro categorias principais:

  • Risco de conteúdo: quando a criança é exposta a vídeos, imagens ou mensagens violentas, sexuais ou que causam algum tipo de dano psicológico.
  • Risco de contato: quando adultos com má intenção abordam crianças pela internet, seja para assediar, aliciar ou perseguir.
  • Bullying digital: quando a própria criança sofre humilhação, ofensa ou pressão de outros usuários dentro de plataformas e jogos.
  • Risco de conteúdo financeiro: quando a criança é induzida a gastar dinheiro em jogos ou apostas, ou tem seus dados pessoais usados sem autorização dos pais.

A lei reconhece os quatro e cria obrigações específicas para cada um deles.

O que muda para as famílias e pais com o ECA Digital?

Duas mudanças afetam diretamente o dia a dia de quem tem filhos:

1. Fim da autodeclaração de idade em sites e apps

Sabe quando um site pergunta “você tem mais de 18 anos?” e basta clicar em sim? Para conteúdos proibidos a menores, como pornografia e apostas, isso acabou. As plataformas agora precisam verificar a idade de verdade, com biometria ou inteligência artificial. Quem não verificar responde pelo acesso indevido.

2. Vinculação obrigatória de contas para menores

Crianças e adolescentes com menos de 16 anos só podem ter contas em plataformas digitais vinculadas à conta dos pais ou responsáveis. Isso significa que os pais passam a ter acesso real ao que acontece: tempo de uso, contatos e compras dentro dos aplicativos. A comunicação com desconhecidos também pode ser restringida.

Quais as obrigações das escolas perante o ECA Digital?

As escolas não ficaram de fora. O ECA Digital determina que elas orientem os alunos sobre como se proteger na internet, tenham um canal para receber denúncias de situações de risco e preparem os professores para reconhecer quando um aluno está em perigo.

Não é mais uma questão de boa vontade ou iniciativa individual de algum professor engajado. É obrigação legal. Ignorar uma situação de risco digital identificada no ambiente escolar passa a ser omissão, com consequências jurídicas para a instituição.

Publicidade infantil e algoritmos: o que é proibido?

O “perfilamento” — quando o aplicativo rastreia tudo que a criança faz, o que assiste, quanto tempo passa em cada tela, o que pesquisa — para usar essas informações na venda de anúncios, está proibido. O algoritmo não pode mais mapear o comportamento de menores para exibir publicidade direcionada.

Para plataformas cujo modelo de negócio é baseado exatamente nisso, a mudança é estrutural. Não é ajuste de política. É uma revisão de como ganham dinheiro.

Loot boxes em jogos: por que se tornaram um problema legal?

Se você tem filhos que jogam videogame ou jogos no celular, provavelmente já ouviu falar em loot boxes, ou já foi cobrado por elas. Funciona assim: o jogador paga um valor para abrir uma “caixinha” e receber um item aleatório. Pode ser algo valioso no jogo, pode ser algo sem importância.

A aleatoriedade é parte do mecanismo e é exatamente isso que a lei equipara ao jogo de azar. Para menores de idade, as loot boxes estão proibidas. As plataformas precisam bloquear essa funcionalidade para usuários identificados como crianças ou adolescentes.

Diferenças entre o ECA Digital do Brasil e leis internacionais

Outros países chegaram à mesma conclusão, de que crianças precisam de mais proteção online, mas tomaram caminhos diferentes. A Austrália proibiu que menores de 16 anos tenham contas em redes sociais. A Espanha seguiu na mesma direção, com verificação reforçada. São soluções de exclusão: tiram a criança do ambiente.

O Brasil escolheu outra abordagem. Em vez de proibir o acesso, a lei exige que as plataformas operem de forma segura para esse público. A aposta é que um ambiente digital bem regulado é melhor do que um ambiente proibido, que muitas vezes leva crianças a plataformas menos seguras e sem qualquer regulação.

Penalidades: o que acontece se a plataforma descumprir a lei?

A fiscalização ficou com a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que assumiu status de agência reguladora e passa a ter poder real de aplicar sanções. As multas chegam a R$ 50 milhões por infração, ou 10% do faturamento da empresa no Brasil. Além disso, as empresas precisam ter um representante legal no Brasil. Não dá mais para operar à distância e alegar que a legislação brasileira não se aplica.

Conclusão: a responsabilidade agora é compartilhada

O ECA Digital não resolve tudo. Nenhuma lei resolve. O que muda é o ponto de partida: a responsabilidade que estava quase inteiramente sobre os pais agora é distribuída entre famílias, escolas e plataformas. Cada um com sua parte. Para as famílias, isso não significa menos responsabilidade. Significa ter ferramentas legais reais para exigir que as plataformas façam a parte delas.

Texto elaborado pela Doutora Denize Tonelotto. Permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

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