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Direito de Família e Sucessões

Justiça Pode Aumentar Pensão de Pai Ausente: Abandono Afetivo e suas Consequências Jurídicas

Por Denize Tonelotto · 03 de outubro de 2025

A Constituição Federal estabelece que a família, base da sociedade, deve ser formada com base em princípios como a dignidade da pessoa humana, o afeto e a solidariedade. Dentro dessa concepção moderna, a paternidade — ou maternidade — transcende a obrigação puramente financeira. Ela não se resume ao pagamento de uma pensão alimentícia, mas envolve convivência, cuidado, presença emocional e um suporte ativo na formação da criança ou do adolescente.

Com base nesse entendimento, os tribunais brasileiros têm avançado e começam a reconhecer que a ausência afetiva de um genitor pode gerar consequências jurídicas severas, que vão além do mero constrangimento familiar, incluindo a possibilidade de majoração da pensão alimentícia como forma de compensação.

O que é o abandono afetivo?

O abandono afetivo ocorre quando um dos pais (ou ambos) se omite e deixa de exercer seu papel fundamental no convívio e na criação dos filhos. Não se trata apenas da ausência física, como em casos de pais que moram em cidades diferentes, mas sim da negligência emocional, da omissão de afeto, carinho, da falta de presença em momentos importantes e do suporte necessário no dia a dia da criança.

Essa omissão parental deliberada pode causar sérios e duradouros impactos na formação psicológica e social do filho, gerando sentimentos de rejeição, baixa autoestima, ansiedade e dificuldades de relacionamento. É crucial entender que, mesmo que o genitor cumpra rigorosamente com o pagamento mensal da pensão, esse ato, por si só, não é suficiente para isentá-lo do seu dever legal e moral de convivência e cuidado.

Justiça reconhece danos e majora pensão

Um caso recente analisado pela 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) reforça esse novo entendimento. Na ação, uma filha, abandonada pelo pai desde a infância, buscou na justiça uma indenização por danos morais, alegando ter sofrido traumas emocionais e físicos decorrentes dessa ausência paterna prolongada.

Inicialmente, a ação havia sido julgada improcedente, sob o argumento clássico de que "afeto não se impõe judicialmente". No entanto, o STJ reformou a decisão, estabelecendo um importante precedente. Os ministros reconheceram que a afetividade passou a integrar o conceito de paternidade responsável, sendo uma obrigação legal dos pais contribuir para o desenvolvimento integral dos filhos — o que, indiscutivelmente, inclui o amparo emocional e psíquico.

Como resultado, o Tribunal fixou uma indenização de R$ 30 mil por danos morais. Além disso, essa linha de decisão abre caminho para que o abandono afetivo justifique o aumento da pensão alimentícia, especialmente quando fica comprovado que o outro genitor (a mãe, no caso) assumiu sozinho todas as responsabilidades — emocionais, educacionais, financeiras e logísticas — pela criação dos filhos.

O que diz a jurisprudência

A relatora do caso no STJ, ministra Nancy Andrighi, destacou em seu voto que a assistência material (a pensão) não esgota as complexas obrigações dos pais. A ausência prolongada e a recusa do pai em participar da vida da filha configuraram uma violação direta ao dever legal de cuidado e presença. Essa violação justificou a indenização e pode, em outros casos, justificar a majoração do valor da pensão como uma medida compensatória ao genitor que arca com todo o peso da criação.

Apesar de ser uma tese jurídica que ganha cada vez mais força no Brasil, ela ainda é aplicada com muita cautela pelos juízes, que analisam as particularidades de cada caso.

Filhos podem até pedir exclusão do sobrenome

As consequências do abandono afetivo podem ser tão profundas que extrapolam a esfera financeira. Há um número crescente de casos em que filhos ajuízam ações para retirar o sobrenome do pai ou da mãe ausente de seus registros civis. O Poder Judiciário tem se mostrado sensível a esses pedidos, entendendo que o nome é um elemento central da identidade e da dignidade da pessoa. Quando ele representa dor, rejeição ou trauma, sua remoção pode ser autorizada como forma de proteger o bem-estar emocional do indivíduo.

Paternidade responsável é mais do que pensão

A jurisprudência do STJ e de outros tribunais deixa uma mensagem clara: pagar pensão não é o mesmo que "cumprir o papel de pai" ou mãe. A legislação moderna exige mais. Pais e mães têm o dever legal de oferecer convivência, impor limites, transmitir valores, dar amor e cuidado. Quando se omitem dessa responsabilidade — e essa omissão causa sofrimento comprovado ao filho —, a Justiça pode e deve agir para garantir a devida reparação.

*Texto elaborado pela Doutora Denize Tonelotto. Permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

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